Mitos
e verdades sobre as latinhas
Dr. Eneo Alves da Silva Jr.*
Há cerca de quatro
anos começaram a circular, na internet, informações sobre supostos casos de
contaminação de latas de bebidas. Algumas dessas mensagens chamavam atenção dos
internautas, que se sentiam motivados a retransmiti-las para toda a sua lista
de amigos: eram relatos sobre a morte de pessoas por leptospirose após terem
bebido diretamente em latas de refrigerantes ou cervejas. Depois de algumas
mensagens do tipo “uma amiga da família morreu de leptospirose...”,
inicialmente traduzidas e adaptadas de outras em circulação nos Estados Unidos,
esse tipo de e-mail passou a citar nomes, como o pai da modelo Daniela
Sarahyba, além de cientistas, professores e institutos de pesquisa, como o Inmetro,
de forma a provocar espanto na população e na comunidade científica.
Alguns jornais e
revistas, que resolveram comprovar a veracidade dessas informações junto às
instituições e às pessoas envolvidas, chegaram à conclusão óbvia: os relatos
veiculados pela internet eram falsos e não passavam de boatos. Lendas da
internet, sem qualquer tipo de comprovação técnica ou científica. Todas as
instituições e pessoas citadas desmentiram categoricamente. Nada foi comprovado
que tenha sido conseqüência da contaminação das latas de bebidas. O próprio
Sistema de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo informa que não
detectou até o momento qualquer caso em que o risco epidemiológico tenha sido o
de consumir bebidas em lata, e considera improvável o risco de transmissão de
leptospirose por esse tipo de embalagem.
É bom lembrar que a
própria superfície do alumínio, em condições normais, é lisa, seca e sem
nutrientes, não oferecendo ambiente propício para a sobrevivência e a
multiplicação de microrganismos. O uso do alumínio aumenta a proteção dos
alimentos e, nas embalagens de medicamentos, contribui para minimizar riscos de
contaminação e violação dos produtos.
Mesmo assim, as
lendas espalhadas na internet sobre as latinhas não deixam de causar impacto.
Chegaram a motivar o empenho de alguns políticos que apresentaram projetos de
lei para tornar obrigatória a colocação de um “selo protetor” nas latas, contra
o risco de contaminação. Uma idéia inútil para um problema inexistente. Mais
que isso: esta medida seria tão desnecessária quanto prejudicial, por não
dispor de qualquer embasamento técnico, já que o selo não é capaz de vedar
totalmente o local de abertura; podem ocorrer microfugas e entrada de umidade e
sujidades, permitindo que os microrganismos presentes se multipliquem e atinjam
altas contagens. Em suma, o selo pode transformar-se num foco de contaminação
microbiana, assim como os invólucros plásticos em garrafões de água mineral,
que foram recentemente proibidos pela Vigilância Sanitária do Estado de São
Paulo.
Por outro lado, um estudo do Cetea
(Centro de Tecnologia de Embalagem) do Instituto de Tecnologia de Alimentos,
ITAL, envolvendo análises microbiológicas das superfícies das latas observou
que a contagem microbiana e fúngica da maioria das latas coletadas
encontrava-se rigorosamente dentro dos limites estabelecidos pela OPAS,
Organização Panamericana de Saúde. Além disso, todas as latas apresentaram
ausência de coliformes fecais e Leptospira
sp., indicando condições sanitárias bastante satisfatórias para consumo. O
estudo concluiu que os níveis de contaminação, quando ocorrem, estão associados
principalmente às condições de higiene do ponto de venda e não da embalagem. O
gelo, por exemplo, usado por vendedores ambulantes e quiosques para resfriar os
produtos, é o principal agente de contaminação das diversas embalagens de
bebidas.
Com
efeito, a quantidade de microrganismos encontrada na superfície das latas em
condições normais de distribuição no comércio está muito longe de ser um risco
ao consumidor. Os padrões higiênicos e sanitários definidos para diversos
alimentos – como rosbife, pescados, embutidos ou presunto cru –, ou seja, as
quantidades de microrganismos aceitáveis para consumo por não acarretarem risco
à saúde, estão muito acima de tudo o que foi encontrado nas superfícies das
latas analisadas pelo Cetea. Esse comparativo vale inclusive para saladas,
sanduíches, queijos e chocolates.
Consumir
bebidas diretamente na lata é tão inofensivo quanto nossos hábitos alimentares
mais comuns. Uma notícia nada surpreendente, pois 200 bilhões de latas de
bebidas são consumidos por ano em todo o mundo e nenhum país cogita de adotar
“selos protetores” nem algo parecido.
O que realmente
conta é a necessidade de orientação do consumidor, pois o caminho para se
evitar problemas é um só: atenção para os hábitos básicos de higiene, ao
comprar e consumir qualquer produto alimentício.
Dr. Eneo Alves da Silva Jr.
Mestre e Doutor em Controle Higiênico-Sanitário de Alimentos
Diretor da CDL Central de Diagnósticos Laboratoriais
Consultor do Programa Mesa Brasil SESC
Consultor da ANVISA para a Copa do Mundo de 2014 e para revisão da RDC
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