Moradores que já foram infectados pelo Aedes aegypti relataram muitas dores e preocupação com a proliferação do mosquito devido à imprudência de vizinhos
Guarda Municipal de Campinas, Defesa Civil e funcionários da empresa Impacto Controle de Pragas na concentração feita no Jd. Eulina, antes de as equipes irem às ruas para conscientizar a população e combater a dengue; novamente, drones foram utilizados na ação.
Declaradamente em “guerra contra a dengue”, Campinas realizou no sábado (20) o terceiro mutirão de combate à doença em 2024, desta vez nas regiões do Jardim Eulina, Jardim Quarto Centenário, Bonfim e Castelo. Moradores e parentes de pessoas que já foram infectadas pelo Aedes aegypti relataram transtornos, a saga em hospitais, intenso mal-estar, algumas sequelas e a preocupação com vizinhos imprudentes. Somente na região do Jardim Eulina são cerca de 100 casos entre suspeitos e confirmados neste ano. Campinas já registrou 466 casos nos primeiros 19 dias de 2024 e em 2023 contabilizou a sexta pior epidemia de dengue da sua história, com mais de 11,1 mil confirmações e três mortes.
O comerciante Emílio Breschak, de 68 anos, vive dias de tensão. Sua esposa está contaminada pelo mosquito e entre idas e vindas de hospital, a situação ainda não foi resolvida. “Minha mulher pegou dengue anteontem em Campinas. Ela passa o dia todo de cama. Eu a levei para o hospital, colocaram ela no soro. Ela estava com febre alta, dor nas articulações, reclamando bastante. Preocupa muito, ela é alérgica a vários medicamentos”, contou o morador da região do Jardim Chapadão.
A cuidadora Kátia Cristina Tineu, de 46 anos, está com suspeita de dengue. Ela contou que tem fibromialgia, mas que as dores agora são diferentes e não passam. “Sinto muita dor de garganta, nos olhos, nas juntas, dores de cabeça que não passam. Eu vim trabalhar mesmo assim, mas já fui parar no Mario Gatti”. Kátia, trabalhadora em uma residência da região do Chapadão, falou que já gastou “uma fortuna” com remédios, mas sem efeitos práticos até então.
A funcionária pública aposentada Isabel Cristina Silva, de 66 anos, já passou pelas “dores da dengue” e diz ter de conviver com plaquetas baixas. “Nunca mais normalizou. É horrível ficar desse jeito. Fiquei com fraqueza, dor de cabeça... Hoje fico em alerta para prevenir a dengue, mas me preocupo com o meu redor, com vizinhos que não fazem sua parte, pessoas que acondicionam muito mal o lixo, acumulando água”, comentou. Ela deu de exemplo uma casa na vizinhança que mantém diversos entulhos no quintal. O volume é tanto que invade a calçada. A reportagem constatou diversos tambores de plástico destampados na Rua Dr. Lucio Pereira Peixoto, bloqueando o passeio público. Uma equipe terceirizada da Prefeitura próxima ao local disse a limpeza somente poderia ser feita com ordem judicial.
DIFÍCIL ACESSO
Durante o mutirão, agentes de combate à dengue da Prefeitura e agentes ambientais da empresa Impacto Controle de Pragas, contratada pela Administração para o enfrentamento da doença, registraram dificuldade de serem atendidos nas casas e de obterem autorização para entrar e checar as condições dos imóveis. “Está bastante difícil entrar, bastante recusa para nos receber”, comentou uma agente ambiental da empresa contratada com a reportagem.
Fausto de Almeida Marinho Neto, coordenador do Programa de Arboviroses de Campinas, alertou sobre a quantidade de casos na região do Eulina e pediu apoio da população. O objetivo é diminuir os casos na faixa dos 90% nas próximas semanas no local.
“Em 2024, já temos uma concentração de perto de 100 casos entre suspeitos e confirmados no Jardim Eulina e a meta é que a gente consiga reduzir esses casos em 90% nas próximas semanas, impedindo a transmissão no bairro. Por isso a gente volta em ações incessantes com a população. É importante que recebam os agentes de saúde sempre que eles forem acionados, que façam o controle semanal de criadouros, façam uma checagem sobre foco de água parada, principalmente agora neste período de calor e chuvas, para impedir a multiplicação do mosquito”, frisou.
DRONES
O mutirão também contou com a tecnologia de drones, alguns deles com capacidade de aproximar a captação de imagens em até 200 vezes, para a fiscalização dos imóveis.
“Hoje, além da ação com os agentes que estão batendo nas casas das pessoas para controle de criadouro, a gente também tem um apoio da Defesa Civil, da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) e da Guarda Municipal com drones para identificar nos imóveis classificados como desocupados ou sem habitação, principalmente, se há foco importante de criadouro do mosquito. Ele vai percorrer alguns endereços, vai fazer a checagem dentro dos imóveis na área externa. Encontrando criadouros, vamos seguir com a ação da Vigilância para tentar contato com os responsáveis para abrir. Em uma negativa, vamos mais adiante e acionar chaveiro para abrir esses imóveis”, explicou o coordenador.
O prefeito Dário Saadi (Republicanos) esteve na região e pediu que as famílias ficassem atentas. “Pedimos para as famílias ficarem atentas e toda semana fazer um check-list, que a Secretaria de Saúde está distribuindo, e verificar dentro de sua casa, no seu quintal, se não tem criadouro do mosquito da dengue, além de permitir a entrada de nossos agentes, voluntários e dos contratados pelas empresas.”
Morador do Jardim Eulina, Carlos Alberto de Castro, já teve dengue e disse que sempre recebe os agentes. “Tenho bastante cuidado. O pessoal sempre passa para fazer vistoria e nunca nego (a entrada). Eles entram, olham tudo e dizem que está 100%”, destacou.
A concentração das equipes nos bairros teve início às 8h e durou o período da manhã. O ponto de encontro dos participantes foi o Centro de Educação Infantil Bolinha de Mel. A ação reuniu 12 grupos da Saúde, sendo três deles direcionados para os imóveis que ficaram inacessíveis durante a ação feita em 11 e 12 de janeiro, enquanto outros nove foram distribuídos entre os outros três bairros escolhidos.
Os locais foram selecionados por causa do número de casos confirmados ou suspeitos de dengue nos últimos sete dias e o objetivo foi mobilizar a população para mais cuidados.
O mutirão totalizou 108 funcionários da empresa Impacto Controle de Pragas, que atua nas visitas aos imóveis para orientação e eliminação de criadouros. Eles usam camiseta branca, com logo da empresa, e calça na cor cinza. O morador que recusa a entrada dos agentes de combate à dengue por insegurança pode ligar para o 156 para checar se a ação é oficial.
Além disso, participaram 26 pessoas ligadas ao Comitê de Prevenção e Controle de Arboviroses, mais de 50 voluntários e 25 agentes de saúde. No mutirão anterior, 44,5% dos imóveis visitados no Eulina deixaram de ser vistoriados porque estavam fechados, desocupados ou por conta de recusas de moradores, índice que já foi menor na comparação com os 57,8% verificados em 16 de dezembro.
6 mil imóveis já foram vistoriados em 2024
Neste ano, a Secretaria de Saúde visitou quase 6 mil imóveis e retirou pelo menos 74,2 toneladas de resíduos, produtos descartados irregularmente em áreas públicas e materiais que serviam ou ofereciam risco para possível proliferação do Aedes aegypti, vetor da doença.
No Jardim Santo Antônio, DICs 3, 4 e 5, e trechos do DIC 6, Jardim Rosalina e Jardim Santos Dumont, foram 3.103 imóveis visitados, com acesso em 1.602. Ao todo, 53 toneladas de materiais foram recolhidos. Na visita anterior ao Eulina, foram 2.786 imóveis visitados, com acesso em 1.545 e 21,2 toneladas de produtos recolhidos.
No último dia 15, o boletim semanal sobre a dengue indicou dez áreas em alerta para a doença em virtude do alto potencial de transmissão: Condomínio Parque da Hípica e Bairro das Palmeiras (região Leste), Cidade Universitária I e II e Village (Norte), Jardim Guarani (Sudeste), além do Conjunto Habitacional Chico Mendes, Residencial São José, Loteamento Residencial Rosário e Vila Aeroporto, todos na região Sudoeste. O Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa) destacou que bairros indicados em boletins anteriores, assim como demais regiões de Campinas, precisam intensificar medidas preventivas, sobretudo combate aos criadouros.
O cenário pode piorar se houver a reintrodução dos vírus tipos 3 e 4, não registrados localmente há 14 anos e nove anos, respectivamente, mas que já causaram infecções em outros municípios. Os grupos mais vulneráveis são crianças, adolescentes e adultos que não tiveram contato com a doença.
republicado de https://correio.rac.com.br/



