segunda-feira, 5 de março de 2018

Pesquisadores coletam mosquitos em zonas de risco em São Paulo para ver se estão infectados

     

A pia de brinquedo esquecida no quintal tem tudo o que o mosquito precisa: um recipiente com água parada, limpa e protegida do sol, à sombra de uma pitangueira. Um verdadeiro spa para as larvas de Aedes aegypti que se multiplicam ali. Duas crianças brincam na varanda, e apenas um quarteirão acima estão as florestas da Serra da Cantareira e do Horto Florestal, que teve sua população de macacos dizimada pela febre amarela no ano passado.

Se um dia a doença voltar a se disseminar por ambientes urbanos, é num cenário como esse que a invasão deve começar. Uma espécie de zona mista, onde a selva de concreto paulistana, infestada de mosquitos Aedes aegypti, se mescla com as florestas úmidas da Mata Atlântica, lar dos mosquitos Haemagogus e Sabethes, vetores da febre amarela silvestre.

A bióloga Rafaella Ioshino, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), coleta dezenas de larvas e ovos de mosquito da pia de brinquedo. A aparência dos ovos e a maneira como as larvas se amontoam no tubo de ensaio são típicas do Aedes. “Elas não gostam de luz, por isso se aglomeram no fundo do tubo para criar um ambiente mais escuro.”

No quintal de uma das casas visitadas, pesquisadores acham grande foco de larvas de mosquito em brinquedos.

Enquanto isso, nos fundos da casa, a coach Priscila Martos, de 33 anos, debruça-se sobre a pia da cozinha. Está abatida pela perda da mãe, Sandra, que morreu de febre amarela há pouco mais de um mês. Ela tinha 55 anos, e não estava vacinada. A família toda havia optado por não se imunizar, temendo possíveis reações adversas da vacina. “A gente busca fazer as coisas de uma forma mais natural”, justifica Priscila. 

Só depois que sua mãe adoeceu é que a família resolveu se vacinar. “Acabamos tomando por medo mesmo”, diz o marido, Alexandre dos Santos. “Foi por milagre que (o vírus) não pegou mais ninguém por aqui.

A visita dos pesquisadores faz parte de uma investigação científica, para certificar que o vírus da febre amarela não está mesmo circulando entre os mosquitos nem entre as pessoas de áreas de risco como essa, na zona norte de São Paulo. 

Como muitos casos de febre amarela são assintomáticos, existe a possibilidade de que a transmissão urbana da doença – quando o vírus é passado de pessoa a pessoa pelo Aedes aegypti – tenha ocorrido (ou esteja ocorrendo) de forma pontual nessas regiões, sem ser percebida. Nesse caso, uma detecção precoce seria essencial para a tomada de ações preventivas de saúde pública. 

O plano é coletar mosquitos, larvas e, quando possível, amostras de sangue e urina de moradores que não tenham sido vacinados, para saber se estão carregando o vírus.

Zona de risco. A zona norte de São Paulo foi a mais afetada pelo surto de febre amarela que se espalhou pela região metropolitana desde o ano passado. O Horto Florestal chegou a ficar três meses fechado, depois que macacos mortos foram encontrados no parque, em outubro. 

Desde então, a maior parte da população local foi vacinada, reduzindo drasticamente o risco de disseminação da doença. Ainda assim, a pesquisa poderá revelar se o vírus continua circulando na região.

Os cientistas capturam os mosquitos com uma espécie de aspirador de pó portátil, que eles passam pelos cantos da casa, embaixo das mesas, dentro de armários e outros lugares escuros onde os insetos se escondem durante o dia. Os mosquitos ficam presos numa redinha, e depois são transferidos para tubinhos plásticos. 

“Pega tudo mesmo, e manda eles para o inferno”, diz a aposentada Florinda de Jesus Souza, de 77 anos, moradora do bairro há quatro décadas. “É uma coisa terrível, um bicho tão pequeno matar uma pessoa.” 

Na casa da família Martos, os pesquisadores encontram dois mosquitos Aedes aegypti adultos. As larvas coletados no quintal podem ser de Aedes aegypti ou Aedes albopictus, uma outra espécie, típica de ambientes silvestres, mas que também circula por regiões periurbanas, e também pode transportar o vírus da febre amarela, segundo uma pesquisa recente do Instituto Evandro Chagas, no Pará.

Na maioria das casas visitadas, os resultados foram positivos, com moradores vacinados e atentos à eliminação de criadouros. Mas o mosquito é astuto, altamente resiliente, e aproveita qualquer brecha para se reproduzir.

Em um bar da região, o dono Samuel Viana conta que não pôde se vacinar por causa de um problema nos rins. Como alternativa, caprichou no inseticida e no repelente, para manter o Aedes aegypti afastado. 

Parece ter funcionado. Os pesquisadores não encontram nenhum mosquito dentro do bar. No topo da casa, porém, o olho treinado de um cientista encontra um ninho fervilhando de larvas, dentro de um buraco escuro de cano no chão da laje.

A presença de muitas larvas e poucos mosquitos é exatamente o que Rafaella esperava encontrar, considerando as condições meteorológicas da semana. “Tivemos alguns dias de frio, seguidos de chuva, e agora muito calor”, explica ela, torrando sob o sol na laje, enquanto a enfermeira Maria Manoela Rodrigues, da Faculdade de Medicina de Jundiaí (uma das instituições parceiras do projeto), colhia sangue de Viana no andar de baixo.

Todas as larvas, ovos e mosquitos serão analisados para saber de que tipo são e se levam algum vírus dentro deles – seja de febre amarela, dengue, zika ou chikungunya. “Queremos determinar quais espécies estão infectadas e com o quê”, diz a pesquisadora Margareth Capurro, do ICB-USP, uma das coordenadoras da pesquisa.

Segundo a Secretaria de Saúde, 102 pessoas morreram por febre amarela no Estado de São Paulo desde janeiro de 2017. O total de casos confirmados é de 286. No País, já são 237 mortes e 723 casos desde julho do ano passado.

Fonte: Artigo publicado no Jornal o Estado de São Paulo

Ciclo da Febre Amarela - Excelente informação do ICB

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Updates on yellow fever vaccination recommendations for international travelers related to the current situation in Brazil Information for international travellers


16 January 2018



This is an update to the WHO advice posted in the Disease Outbreak News of 27 January 2017, 6 March 2017, 20 March 2017, 4 April 2017, and 24 November 2017; and on the WHO International Travel and Health website on 31 January 2017, 14 February 2017, 6 March 2017, 17 March 2017, and 4 April 2017.

Since December 2016, Brazil is experiencing an upsurge of yellow fever virus activity. Between 1 December 2016 and 30 June 2017, 1659 epizootics in non-human primates were registered in 21 states (Alagoas, Amazonas, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, and Tocantins), and in the Federal District; a total of 777 human cases were reported, including 261 fatal, in eight states (Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, and Tocantins), as well as in the Federal District. On 9 September 2017, the government of Brazil declared that seasonal yellow fever virus activity has subsided.

Following the 2017 winter season in the Southern hemisphere, an increased yellow fever virus activity was again observed. Between 1 July 2017 to 8 January 2018, yellow fever virus infection was confirmed in relation to 358 epizootics in non-human primates in the states of Mato Grosso do Sul (0.3% of cases), Minas Gerais (9%), Rio de Janeiro (0.7%), and São Paulo (90%). As of 8 January 2018, 687 epizootics were under investigation for yellow fever in 17 states (Alagoas, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, and Tocantins), and in the Federal District. Over the same period of time, yellow fever virus infection was laboratory confirmed in 11 human patients, including four who died, from the states of Minas Gerais (one fatal case), Rio de Janeiro (one case), São Paulo (8 cases, including two fatal), and the Federal District (one fatal case). As of 8 January 2018, 92 additional human cases were under investigation for yellow fever virus infection in 15 states (Bahia, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauì, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, and Tocantins), as well as in the Federal District.

Considering the increased level of yellow fever virus activity observed across the state of São Paulo, the WHO Secretariat has determined that, in addition to the areas listed in previous updates, the entire state of São Paulo should also be considered at risk for yellow fever transmission.

Consequently, vaccination against yellow fever is recommended for international travellers visiting any area in the state of São Paulo.

The determination of new areas considered to be at risk for the yellow fever transmission is an ongoing process and updates will be provided regularly.

The current advice by the WHO Secretariat for international travellers going to areas in Brazil deemed to be at risk is the following:

Vaccination against yellow fever at least 10 days prior to the travel. Note that, as per Annex 7 of the International Health Regulations (2005), a single dose of a yellow fever vaccine approved by WHO is sufficient to confer sustained immunity and life-long protection against yellow fever disease. Travellers with contraindications for yellow fever vaccine (children below 9 months, pregnant or breastfeeding women, people with severe hypersensitivity to egg antigens, and severe immunodeficiency) or, over 60 years of age should consult their health professional for advice;
Adoption of measures to avoid mosquito bites;
Awareness of symptoms and signs of yellow fever;
Seeking care in case of symptoms and signs of yellow fever, while travelling and upon return from areas at risk for yellow fever transmission.
For 2017, updates on country requirements for the International Certificate of Vaccination or Prophylaxis, with proof of vaccination against yellow fever, and WHO vaccination recommendations for international travellers, are available on the WHO International Travel and Health website: Annex 1 and country list . More specific information about requirements for the International Certificate of Vaccination or Prophylaxis, with proof of vaccination against yellow fever, implemented by Member States related to the current situation in Brazil in the Region of the Americas is available on the PAHO yellow fever website.

Fonte: extraído do site  http://www.who.int/ith/updates/20180116/en/

OMS recomenda vacinação contra febre amarela para estrangeiros que visitem 21 estados brasileiros


A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório da Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçou neste mês (16) a recomendação de que turistas internacionais se vacinem com antecedência contra a febre amarela. 

Segundo a agência da ONU, viajantes devem tomar a vacina pelo menos dez dias antes de ir a países e regiões onde o vírus da doença circula. Vinte e um estados brasileiros estão na lista de locais da OMS considerados de risco para a infecção.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório da Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçou neste mês (16) a recomendação de que turistas internacionais se vacinem com antecedência contra a febre amarela. Segundo a agência da ONU, viajantes devem tomar a vacina pelo menos dez dias antes de ir a países e regiões onde o vírus da doença circula. Vinte e um estados brasileiros estão na lista de locais da OMS considerados de risco para a infecção.

A OPAS solicita a seus Estados-membros que mantenham seus cidadãos informados sobre os riscos e as medidas preventivas contra a patologia, que incluem a imunização. Segundo o organismo, turistas devem se proteger de picadas de mosquitos e buscar atendimento médico caso se sintam doentes durante a viagem ou ao retornar para seus países de origem.

Na avaliação da agência da ONU, casos da infecção envolvendo turistas não vacinados são indícios de que países precisam ampliar a difusão de recomendações de saúde para quem viaja.

De janeiro de 2016 a janeiro de 2018, sete países e territórios da região das Américas notificaram episódios de febre amarela — Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Peru e Suriname. O governo brasileiro registrou a maior parte das ocorrências da patologia, incluindo em regiões onde a circulação do vírus não havia sido identificada por décadas, como os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A OMS recomenda a vacinação contra a febre amarela para turistas estrangeiros que desejem visitar 21 estados do Brasil, considerados de risco para a transmissão da doença. São eles Alagoas, Amazonas, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins.

A definição de novas áreas onde há chances de transmissão da patologia é um processo contínuo, monitorado e atualizado constantemente pela OMS. 

Fonte: https://nacoesunidas.org/





terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Casos mais graves de febre amarela têm alta letalidade


Infectologista do Hospital das Clínicas revela mudança de rotina na UTI e ressalta a importância da vacinação

O Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) teve alteração em toda sua rotina por conta da febre amarela. A doutora Ho Yieh Li, coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias, contou que o hospital passou a receber pacientes após ser avaliada a situação no município de Mairiporã, onde morriam diariamente de 5 a 7 pessoas, vítimas da doença.

Os pacientes foram avaliados em três grupos de gravidade: os que não precisam de internação, mas são acompanhados diariamente; os que podem ser internados na enfermaria, transferidos para o Emílio Ribas; e os casos mais graves, que foram internados na UTI do hospital.

Após 45 dias desde o início do trabalho no Hospital das Clínicas, os números escancaram a gravidade da situação. De 90 pacientes internados durante esse período, 62 tiveram a febre amarela confirmada e 36 morreram, mais da metade. A infectologista explica que nem todos os pacientes desenvolverão a forma grave da doença, mas, entre os que desenvolvem, a taxa de letalidade é altíssima. Por essa razão, a vacinação, única forma de prevenir a doença, é de suma importância.



Jornal da USP, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados, Faculdade de Medicina e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré.

Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular. Ouça a entrevista completa no site jornal.usp.br.

Fonte:   jornal.usp.br


FEBRE AMARELA - UM HISTORICO DE REVOLTAS


Não se vislumbra no cenário de imunização no Brasil nada que lembre a Revolta da Vacina, em 1904, na cidade do Rio de Janeiro, quando a população virou bondes, danificou fachadas de prédios, quebrou árvores e destruiu lampiões para protestar contra a vacina da varíola.

Na época, os agentes sanitários invadiam as casas e aplicavam as injeções à força. Para quem acreditava que se tratava de uma tática do Estado para exterminar as camadas mais humildes, a violência dos agentes só fez aumentar o rechaço.

Em uma proposta muito mais conciliadora, agentes comunitários têm visitado domicílios em bairros de São Paulo para saber quem tomou ou não a vacina. Aproveitam para distribuir uma senha de vacinação aos que ainda não se protegeram e esclarecer dúvidas. Os eventos adversos costumam ocupar o topo das perguntas.

"Ainda não temos certeza, mas acho que o Carnaval e o período de férias contribuíram para essa drástica diminuição na procura pela doses", cogita Marco Antônio Carvalho de Lima, coordenador de saúde da região Sul do município de São Paulo.

Na visão geral, diz ele, ainda vigora a percepção de que a vacina, se não mata, traz algum efeito colateral que pode comprometer um período de relaxamento e descontração, por exemplo. Com a volta ao ritmo normal, a proposta é convencer a população de que não há nenhuma conspiração embutida na fórmula do produtO.

Fonte: BBC Brasil

A apuração dos casos reais de reação à vacina é muito lenta aumentando a insegurança


Quando perguntada sobre a demora na apuração dos casos suspeitos - reclamação não somente da família de Vitória mas de outras cujos parentes padeceram depois da vacina e que ainda aguardam o resultado do Adolfo Lutz sobre a causa da morte -, Regiane de Paula afirma que o processo não é tão simples assim.

"São feitos, entre outros, um exame de histopatologia e de PCR (técnica de isolamento viral), além do levantamento do histórico familiar para confirmar se a pessoa tinha ou não uma doença de base", diz.

Para atestar um efeito adverso, continua a diretora, os critérios e as etapas são mais longos e complexos do que confirmar um caso de febre amarela "puro", transmitido pela picada de um mosquito Haemagogus ou Sabethes.

Segundo a OMS, vacina para febre amarela tem eficácia superior a 95%

Segue sem resposta o caso do menino Murilo Pio, de 3 anos, que morreu no dia 19 de janeiro, cinco dias após a vacinação.

O Hospital Renascença, em Osasco, que o diagnosticou em um primeiro momento com nasofaringite aguda, recebeu a criança dois dias depois, já em um quadro de contrações musculares da face seguido de crise convulsiva generalizada. A parada cardiorrespiratória aconteceu às 15h55 da sexta-feira. Às 16h35 os médicos atestaram a morte, após intubação orotraqueal e manobras de reanimação sem sucesso.

Entre os comentários virtuais depois do falecimento de Murilo, mais indignação: "A vacina está matando mais que a tal febre, 'gadão' sem noção", "Isso tem nome e chama-se homicídio culposo", "Temos tecnologia para produzir uma vacina com vírus morto, mas não é de interesse pois é um vírus que existe no 3º mundo e não há retorno financeiro".

Fonte: BBC Brasil



Nas redes sociais os efeitos adversos se amplificam e reduzem a população a ser vacinada

Nas redes sociais, os efeitos adversos se amplificam

Nas redes sociais, alguns internautas atribuem à vacina de febre amarela diversas complicações; registros oficiais indicam poucos casos de óbitos oficialmente ligados à imunização.

Ocorre que certos casos ainda não esclarecidos desses efeitos vicejam no Facebook e no YouTube, alargando ainda mais o pé atrás quanto ao produto.

Um deles é o de Vitória Marina Souza Gomes, de 15 anos. No dia 10 de janeiro, quarta-feira, a adolescente procurou um posto de vacinação no bairro de Comendador Soares, em Nova Iguaçu. Baixada Fluminense. Queria tomar a vacina da febre amarela.

A garota não morava em área visada pelos mosquitos transmissores da doença, tampouco pensava em passear em um lugar assim. Mas havia "um medo lançado no ar", como lembra a irmã Lorena Gomes, e Vitória achou por bem se proteger recebendo no corpo um vírus vivo atenuado.

No dia seguinte, sentia enjoo e dores abdominais. O quadro agregou febre alta e dor de cabeça forte. No domingo, acordou com os olhos inchados e a dor de cabeça não dava sinal de passar. Na segunda, veio uma convulsão. O edema, que começou nos olhos, se espalhou pelo rosto e pescoço.

Sucedeu-se uma semana angustiante, agora com vermelhidão e dores tão fortes pelo corpo que ela mal caminhava sozinha. Até que surgiu a dificuldade para respirar. Dezesseis dias depois de tomar a vacina, Vitória teve três paradas cardíacas. Morreu no Hospital Geral de Nova Iguaçu. O causador oficial da morte, aquele que consta do atestado de óbito, não foi o flavivírus da febre amarela, mas uma bactéria, a Staphylococcus aureus. Para os médicos, Vitória morreu devido a uma pneumonia.

A família, no entanto, aposta que a vacina teve seu papel nesse calvário. Priscila, a mãe de Vitória, diz ter avisado sobre essa imunização aos profissionais que atenderam a garota tanto na UPA quanto no Hospital Souza Aguiar e no Nova Iguaçu, também conhecido como Hospital da Posse. "Mas preferiram apostar em sinusite, conjuntivite, alergia, infecção urinária, lúpus", afirma Lorena.

No dia 24, diz a irmã, os médicos coletaram sangue para fazer o exame da febre amarela com o propósito de enviá-lo para análise em São Paulo. Os familiares ainda não receberam o laudo dessa avaliação. Vitória sofria de bronquite, mas a família afirma que a moléstia estava sob controle. Foi isso o que teria relatado à agente de saúde quando perguntada sobre sua condição física antes de receber a agulhada no braço. "Ela foi liberada para tomar a dose", conta Lorena.

Depois do acontecido, os Gomes não querem mais saber de imunização alguma - ainda que o irmão da adolescente, que também sofre de bronquite, tenha manifestado apenas dor de cabeça depois de se imunizar junto com ela.

A rejeição é compartilhada por quem visitou a página no Facebook de Lorena antes e depois da morte de Vitória. Não faltaram comentários baseados em teorias da conspiração: "O governo quer acabar com o povo", "A vacina é uma fraude", "Nunca confiei nessas vacinas, veja o caso do ebola, tudo criado", "Tá parecendo aquela injeção que mata", "Posso morrer de febre amarela, azul ou roxa, menos de vacina; disso sim já estou imunizada".

Fonte: BBC Brasil



Quais são os efeitos adversos ao tomar a vacina contra a febre amarela?

Quais são os efeitos adversos?

O capítulo do Manual de Vigilância dedicado à vacina da febre amarela toma 9 páginas. Na introdução, o manual lembra que o imunizante é utilizado na prevenção à doença desde 1937. Composto por vírus vivo atenuado da cepa 17DD ou equivalente, cultivado em ovos de galinha embrionados, contém sacarose, glutamato, sorbitol, gelatina bovina, eritromicina e canamicina.

Daí sua primeira contraindicação: indivíduos com história de reação anafilática a qualquer uma dessas substâncias, incluindo ovo de galinha, deve sair da fila de vacinação e voltar para casa.

Seguem na linha de risco crianças menores de 6 meses de idade (a recomendação na campanha do Estado de São Paulo é de 9 meses como idade mínima), pacientes com imunodepressão de qualquer natureza - de transplantados a pessoas submetidas a tratamento com quimioterapia - e idosos com 60 anos ou mais que buscam a vacina pela primeira vez.

São considerados efeitos adversos leves febre, dor no local da aplicação, vermelhidão, dor de cabeça, dor abdominal. Entre os graves, estão encefalite, meningite, doenças autoimunes com envolvimento do sistema nervoso central e periférico, como a Guillain-Barré, afora infecção semelhante à forma severa da doença, chamada de doença viscerotrópica aguda. Ela normalmente começa com ânsia, vômito e fadiga e pode evoluir para sintomas como dificuldade para respirar, taquicardia, hemorragia, insuficiências hepática e renal. Em alguns casos leva a óbito.

O manual cita que, de 2007 a 2012, a incidência dos efeitos adversos graves foi de 4,2 casos por 1 milhão de doses administradas. Regiane de Paula fala em um caso de morte a cada 500 mil. Ou seja, dois casos em 1 milhão.

Ela ressalta que os efeitos adversos da vacina da febre amarela estão muito bem estabelecidos e que apenas 5% deles podem evoluir para uma doença viscerotrópica aguda, por exemplo.



Fonte: BBC

Depois de corrida aos postos, vacina da febre amarela encalha em meio a boatos sobre reações


Mônica Manir
De São Paulo para a BBC Brasil

Casos de óbito por febre amarela vêm subindo desde o começo de 2017

Embora os casos de morte por febre amarela sigam subindo desde o começo de 2017 e tenham atingido o número de 93 vítimas no último dia 23 (contra 76 até o dia 16, segundo a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo), milhões de doses da vacina fracionada continuam dentro dos refrigeradores dos postos de saúde, à espera da população.

Na prática, a situação em São Paulo passou de uma corrida desenfreada aos locais de vacinação para o encalhe de doses.

O não comparecimento do público na frequência desejada pelas autoridades fez com que o fim da campanha de vacinação no Estado fosse postergada do dia 17 de fevereiro para o dia 2 de março. No entanto, a três dias do término do prazo estendido, 5,1 milhões de pessoas não foram vacinadas em 54 cidades abrangidas pela campanha. A proposta é imunizar 9,2 milhões nesses locais.

'Se matarem macacos, mosquitos vão atrás de sangue humano'

"No início, as pessoas saíam de áreas não visadas pelo vírus para se sujeitar a pegá-lo nas filas das regiões em que havia casos; agora sobram doses nos postos", afirma Regiane de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo. "A gente vai ter de traçar uma segunda estratégia para atingir a meta dessa imunização preventiva."

Se a doença em si assustou em um primeiro momento, a população parece agora mais preocupada com eventos adversos da vacina. Um dos sinais disso são postagens que pipocam nas redes sociais atribuindo ao produto complicações as mais variadas possíveis: "Tem gente que está perdendo filho na barriga por conta de ter tomado a vacina", "Vacina causa outras doenças no futuro, como câncer", "Vacina é armadilha", "60 médicos americanos dizem ao mundo não tomem o veneno da vacina da morte da febre amarela".

A vacina tem eficácia superior a 95%, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), e, mesmo fracionada, protegeria a pessoa por no mínimo oito anos. Em seguidas entrevistas, Helena Sato, diretora de Imunização da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e colega de Regiane, faz questão de reiterar em frente das câmeras: "Não precisamos ter medo dessa vacina, ela é excelente".

Desde janeiro de 2017, poucos são os casos de óbitos atribuídos oficialmente a uma reação à vacina da febre amarela - mais precisamente, apenas três pessoas entre quinze suspeitas, todas no Estado de São Paulo e todas com menos de 60 anos e sem registro de doenças anteriores.


Proposta do governo é vacinar 9,2 milhões pessoas em 54 cidades de São Paulo

De qualquer forma, efeitos fora do script estão previstos não apenas para a vacina da febre amarela, mas para muitas outras.

No Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação, elaborado pelo Ministério da Saúde e em sua terceira edição, é possível encontrar reações graves e não graves às vacinas de difteria, tétano, pertússis (coqueluche), hepatite A, hepatite B, BCG, cólera, febre tifoide, influenza, HPV, poliomielite, raiva, rotavírus humano, sarampo, caxumba, rubéola, varicela e febre amarela. O manual funciona como uma bula quilométrica, com 250 páginas, voltada a profissionais da saúde.

Uma de suas principais referências é a Brighton Collaboration, organização sem fins lucrativos sediada na Suíça que conta com cinco mil especialistas dedicados a tornar as vacinas cada vez mais confiáveis.

"O sucesso das vacinas implica que a imunização permaneça o mais segura possível, particularmente porque é oferecida a indivíduos saudáveis", lembra o grupo no seu site, enfatizando que a responsabilidade aumentou nos últimos tempos devido à distribuição mais rápida e ampla do produto pelo mundo.

Fonte: BBC Brasil

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Repelente caseiro

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O que pode detonar uma epidemia urbana de febre amarela



Se população de Aedes aegypti crescer, também aumentará o risco de transmissão urbana da febre amarela

Uma das maiores preocupações de cientistas que estudam a febre amarela e de autoridades que tentam controlar o atual surto da doença é evitar que o vírus comece a ser transmitido nas cidades pelo mosquito Aedes aegypti, também vetor da dengue, chikungunya e zika.

Por enquanto, o Brasil só vem registrando casos de contaminação por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que são silvestres - ou seja, vivem em florestas. Ao longo de 2017, foram confirmados 779 casos de febre amarela, 262 deles resultando em mortes.

O surto poderia ser muito mais mortal se pessoas estivessem sendo infectadas dentro de centros urbanos, não apenas em áreas de parques e florestas. Mas nesta semana, um caso de infecção em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, acendeu um sinal de alerta.

Que grupos não devem tomar vacina da febre amarela - e como se proteger.!

A prefeitura informou que um homem de 35 anos teria sido contaminado na cidade, e não em área de mata. Mas o Ministério da Saúde esclareceu, depois, que o paciente trabalharia em uma área rural, embora morasse em bairro urbano. E que testes precisariam ser feitos para verificar se, de fato, ele foi infectado pelo Aedes aegypti. A pasta disse considerar "baixíssima" a possibilidade de haver infecção urbana.

Diante desse cenário, a BBC Brasil conversou com especialistas para saber o que poderia causar um surto de febre amarela nas cidades do país. A falta de controle do Aedes e uma série de fatores seriam necessários para que isso ocorresse. Confira:


A diferença entre a febre amarela urbana e a silvestre está nos mosquitos que transmitem o vírus em cada ambiente 

Como saber se a contaminação foi 'silvestre' ou 'urbana'?

Uma das diferenças centrais entre a febre amarela urbana e a silvestre está nos mosquitos que transmitem o vírus em cada ambiente.

Enquanto nas florestas insetos dos gêneros Haemagogus e Sabethes disseminam a doença, nas cidades o Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya, é a espécie com potencial de transmissão do vírus.

Vale lembrar que os mosquitos silvestres têm predileção por sangue de macacos e o Aedes, pelo humano - essas preferências vem de milhões de anos de evolução e adaptação genética desses dois tipos de inseto.

De acordo com pesquisador Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz, será necessário fazer três tipos de investigação para determinar se o homem de São Bernardo do Campo foi infectado pelo mosquito Aedes aegypti:

- Mapear a rotina do paciente, para saber se ele passou por zonas onde existe a presença de mosquitos silvestres, de macacos ou de outras pessoas infectadas. É o que os infectologistas chamam de investigação epidemiológica.

- Detectar o momento exato de apresentação dos primeiros sintomas, para estimar o momento em que houve a contaminação pela picada do mosquito.

- Coletar e examinar mosquitos que habitam as áreas por onde o homem infectado passou, para verificar quais espécies apresentam o vírus - a chamada investigação "entomológica".

A partir dessas análises seria possível, segundo Lourenço, identificar se mosquitos silvestres ou urbanos infectaram o paciente.


Mosquitos silvestres têm capacidade muito maior de transmitir a febre amarela | 
O que seria necessário para um Aedes aegypti se infectar e transmitir febre amarela?

Segundo o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, alguns fatores combinados precisam estar presentes para que o Aedes aegypti passe a transmitir febre amarela nas cidades.

Primeiro, seria preciso que uma pessoa infectada com alta concentração do vírus no sangue entrasse em uma área com grande infestação de Aedes aegypti. É importante lembrar que um mosquito não necessariamente é infectado ao picar uma pessoa doente, ou contrai uma quantidade suficiente do vírus para passá-lo adiante.

E, para que o vírus se propague a ponto de causar um surto urbano, os Aedes infectados por essa primeira pessoa teriam que estar próximos a populações humanas vulneráveis a ele, ou seja, que não tenham tomado a vacina.

Após ser picado, o ser humano só mantém o vírus em concentração suficiente para infectar mosquitos por dois ou três dias, diz Lourenço.

Uma pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz mediu a capacidade do Aedes aegypti de transmitir o vírus da febre amarela. Para realizar os testes, os pesquisadores coletaram ovos dos mosquitos nas cidades e em áreas de mata do Rio de Janeiro, Manaus e Goiânia. O estudo mostrou que ele é capaz de passar a doença, mas sua eficiência como vetor varia de acordo com a população de insetos.

Os Aedes aegypti do Rio de Janeiro apresentaram o maior potencial de disseminar a febre amarela, com 10% dos mosquitos apresentando partículas do vírus na saliva 14 dias após a alimentação por sangue infectado. Ou seja, pelo estudo, a cada 100 mosquitos que picassem uma pessoa infectada, 10 se contaminariam.

Daí a necessidade de vários fatores combinados para a disseminação em meio urbano, como quantidade suficiente de vírus no sangue do ser humano infectado e presença de muitos Aedes para picar esse ser humano e retransmitir a doença no meio urbano.

Ainda assim, a capacidade de transmissão do vírus pelos mosquitos urbanos verificada na pesquisa é considerada preocupante pelos pesquisadores.

"Os dados apontaram que os insetos fluminenses das espécies Aedes aegypti são altamente suscetíveis a linhagens virais no Brasil. A competência vetorial dos mosquitos Aedes também foi verificada em Manaus e, em menor grau, em Goiânia. O achado reforça a importância de medidas preventivas, como a vacinação e o controle do Aedes aegypti", diz Lourenço.

Os mosquitos silvestres têm capacidade muito maior de transmitir a febre amarela. Segundo o estudo do Instituto Oswaldo Cruz, o percentual de Haemagogus do Rio de Janeiro infectados chegou a 20%. Entre os Sabethes locais, esse percentual alcançou 31%.

Controle da população de Aedes é essencial

O professor Aloisio Falqueto, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), diz que a população de mosquito Aedes aegypti existente hoje no Brasil ainda é, por enquanto, considerada pequena para ser capaz de provocar uma epidemia de febre amarela urbana.

Segundo ele, em períodos de chuvas e calor- ambiente mais propício para proliferação de mosquitos -, a existência de focos de Aedes alcança até 5% das casas brasileiras. Na África, onde há epidemia de febre amarela urbana, esse percentual varia de 20% a 40%.

Em período de chuvas e calor, a existência de focos de Aedes alcança 5% das casas brasileiras 

"Se tivesse uma densidade grande de Aedes no Brasil, existiria a condição de disseminar a doença na cidade. Por enquanto, a densidade baixa do mosquito não permitiu que a doença se disseminasse."

Falqueto destaca, porém, que é preciso manter ações de combate ao mosquito para evitar que o risco de epidemia urbana aumente.

"No Brasil, raramente chegamos a ter 5% das casas com foco de Aedes. Mas esse já seria um nível crítico. A partir daí a gente teria que se preocupar com o vírus em transmissão urbana."

O Ministério da Saúde diz que é "baixa" essa possibilidade de transmissão. De acordo com a pasta, as ações de vigilância com captura de mosquitos urbanos e silvestres não encontraram, até o momento, presença do vírus no Aedes.

"Já há um programa nacionalmente estabelecido de controle do Aedes aegypti em função de outras arboviroses (dengue, zika, chikungunya), que consegue manter níveis de infestação abaixo daquilo que os estudos consideram necessário para sustentar uma transmissão urbana de febre amarela", disse a pasta, em nota.

"Além disso, há boas coberturas vacinais nas áreas de recomendação de vacina e uma vigilância muito sensível para detectar precocemente a circulação do vírus em novas áreas para adotar a vacinação oportunamente."


Por enquanto, o Brasil só vem registrando casos de contaminação por mosquitos silvestres 

Medidas de prevenção

Como o tamanho da população de Aedes aegypti determina o risco de contaminação por febre amarela, os pesquisadores ressaltam que é essencial a participação da população para prevenir o aumento do número de mosquitos nas cidades e nos quintais de casas perto de matas.

Vacinar populações em áreas de risco é essencial para evitar risco de contaminação urbana do Aedes aegypti, segundo especialistas

"Com esse numero de casos de febre amarela pipocando, se por alguma razão as densidades de Aedes aumentarem, o risco de febre amarela urbana aumentará de maneira assustadora", diz o médico infectologista Eduardo Massad, professor da Universidade de São Paulo (USP).

É preciso estar atento ao acúmulo de água parada em garrafas, pratos de plantas e outros objetos deixados em jardins e varandas, assim como fazer a manutenção de calhas e manter caixas d'água e outros depósitos vedados.

Os especialistas do Instituto Oswaldo Cruz também recomendam que o Brasil considere exigir a imunização de pessoas vindas de países que são alvo de febre amarela, sobretudo da África, onde há a doença em centros urbanos. O país já exige Certificado Internacional de Vacinação a pessoas vindas de Angola e da República Democrática do Congo.

Além disso, vacinar populações de áreas de risco é essencial para evitar a proliferação da doença, segundo os pesquisadores.

"Eliminar os criadouros e controlar a proliferação do Aedes aegypti é uma medida importante para evitar a reemergência da febre amarela urbana no Brasil, além da questão básica e já amplamente conhecida de ele ser também responsável pela transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya", diz Dinair Couto Lima, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz e uma das autoras da pesquisa sobre mosquitos transmissores.

Fonte.
Nathalia Passarinho
Da BBC Brasil em Londres
7 fevereiro 2018

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Risco de a febre amarela voltar a ser uma doença urbana é pequeno, dizem especialistas.


Apesar de a possibilidade existir, especialistas defendem que é muito pequena a possibilidade de ressurgimento da transmissão da doença por mosquitos que vivem nas cidades. O aumento de casos de febre amarela, com pessoas se contaminando nas franjas de matas nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, reacende um velho medo que surge a cada novo ciclo: a febre amarela pode voltar a ser uma doença urbana? A possibilidade existe, mas é muito pequena conforme relatos de especialistas no Estado de São Paulo com base em pesquisas sobre a evolução da epidemia e a biologia do vírus e dos mosquitos transmissores.

O ressurgimento da transmissão urbana, ou seja, por mosquitos que vivem na cidade, como o Aedes Aegypti, depende basicamente de três condições: ter muita gente contaminada em estado de viremia (com a presença do vírus circulando no sangue), vivendo em uma área onde haja uma população muito grande de mosquito e com capacidade de transmitir o vírus da febre amarela.

As longas e demoradas filas em busca da vacina na última semana podem até dar a sensação de que esta é a situação atual, mas os pesquisadores são categóricos: não é.

Para começar, a população de mosquito, por mais que traga uma série de problemas - vide as epidemias de dengue, zika e chikungunya dos últimos dois anos -, é considerada pequena para a febre amarela. 

"Na época em que a febre amarela era exclusivamente urbana (até o começo dos anos 1940), a densidade de mosquitos nas cidades era muito maior. O necessário para ter a transmissão urbana seria ter pelo menos o dobro do que temos hoje", explica o virologista e epidemiologista Renato Pereira de Souza, pesquisador científico do Instituto Adolfo Lutz. 



Todos os casos registrados nas últimas décadas foram e são exclusivamente do tipo silvestre. A contaminação ocorre quando uma pessoa sem vacina entra em área de floresta, como a região da Cantareira, na zona norte de São Paulo, ou está em um local rural próximo de uma mata e é picada por um mosquito silvestre que só vive ali. Esses insetos podem até voar em áreas urbanas
contíguas a parques, mas nunca irão para dentro das cidades.

Nelas, a transmissão caberia ao Aedes. Mas o mosquito que circula nas cidades brasileiras, apesar de ser capaz de transmitir a febre amarela, não é tão competente assim como vetor do vírus.

Então seriam necessários muitos mosquitos para impulsionarem uma epidemia.
Até as décadas de 20 e 30, as variantes de Aedes que existiam no Brasil eram de origem africana, essas sim bem aptas a transmitir o vírus. Mas elas foram erradicadas. A variante atual é asiática, menos capaz. Isso se soma ao fato de que há um controle do vetor nas cidades, como lembra Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas. "Embora (com esse controle) não se consiga impedir uma epidemia de dengue, zika ou chikungunya, conseguimos evitar a transmissão humana do vírus da febre amarela. No Aedes Aegypti, o vírus não se replica de forma tão eficiente quanto nos outros três. Tanto é que os índices de infestação no Brasil costumam ficar em 5%, chegando no máximo a 10% em alguns locais. Esses números nos dão quase a certeza de que não teremos um surto de febre amarela urbana", afirma.

Trabalho divulgado no ano passado por pesquisadores dos Institutos Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e Evandro Chagas, para avaliar o risco de reurbanização da doença, mostrou que, em laboratório, o Aedes Aegypti, ao ser alimentado com sangue contaminado, teve o vírus detectado em sua saliva 14 dias depois. Esse é o principal indicador do potencial de transmissão da doença.
Mas na vida urbana, outras coisas estão acontecendo, como a ocorrência de outros vírus, que se saem muito melhor dentro do Aedes. "O vírus da chikungunya é o que tem a maior facilidade. Ele se replica mais rapidamente e, em três dias, já estava na saliva do mosquito. O da dengue leva cerca de uma semana. E o da zika e da febre amarela, em torno de 12 dias", comenta Ricardo
Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC.

Fator humano

O terceiro item da fórmula é a quantidade de pessoas em viremia. "No ser humano, o vírus da febre amarela só fica circulando no sangue - que é quando ele pode ser transmitido ao mosquito -, por um período de dois a quatro dias. Logo após a pessoa se contaminar ou quando ela já está em um estado mais crítico, isso não ocorre", explica Souza. "Por isso se diz que a transmissão da doença é um fator populacional. Não vai ocorrer tendo uma pessoa infectada ao lado de um mosquito. É preciso ter várias pessoas infectadas, com viremia e 
expostas a uma quantidade grande de mosquitos que vão transmitir para uma população suscetível. São várias etapas que têm de acontecer simultaneamente", completa. E com a vacinação em massa, mesmo que fracionada, esse lado da equação tende a diminuir ainda mais. Um exemplo disso ocorreu em Assunção, no Paraguai, em 2008, quando houve um pequeno
surto de febre amarela na região metropolitana. "Vacinando a população rapidamente, eliminando criadouros e borrifando mosquitos adultos, o vírus foi debelado e o aumento de casos, detido", conta Vasconcelos.

Há 111 anos, Brasil vencia os mosquitos.

No fim do século 19, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do País eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e motivo direto das recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros simplesmente evitavam aportar por aqui. O Brasil recebeu a alcunha de "túmulo dos estrangeiros". Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 dispostos a mudar radicalmente aquela situação. Já no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado para assumir a diretoria-geral de Saúde Pública, um cargo similar ao de atual ministro da Saúde. Sua missão era acabar de vez com a febre amarela. O médico logo criou o Serviço de Profilaxia, que colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos - agentes sanitários que tinham por objetivo eliminar os focos do vetor da época, o Aedes Aegypti. O modelo de ação era autoritário: agentes entravam à força nas casas para destruir os locais de desova do mosquito.

Mas surtiu efeito: em 1907 a epidemia foi considerada erradicada. Desde o fim dos anos 1920, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 a vacina está disponível. O último registro oficial de transmissão do vírus em uma cidade brasileira é de 1942. "A população era muito menor do que hoje, e a política sanitarista era totalmente truculenta, inaceitável atualmente", pondera a historiadora da Ciência Danielle Sanches, da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Mas a gente perdeu um pouco o bonde dessa busca pelo saneamento."
Na avaliação do historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, passou a predominar no país uma atitude passiva e tolerante. Segundo o também editor científico da revista História, Ciências e Saúde - Manguinhos, não houve uma política de vacinação entre a população urbana justamente no momento em que as cidades mais cresceram. "A febre amarela urbana inspira um pânico por 
causa dessa memória coletiva, essa lembrança inconsciente desses tempos calamitosos da epidemia urbana", afirma o historiador Jaime Benchimol, da Fundação Oswaldo Cruz. "E existe um risco de fato de uma volta da doença. Temos conhecimento de sobra, mas não temos é vontade política de enfrentar a situação", completa.

Este texto foi obtido no site do Instituto Evandro Chagas, clipping de um texto elaborado e publicado no jornal Gazeta do Povo on line.